Numa epoca difícil da vidinha de uma pessoa, tudo o que é mais ou menos mau parece péssimo. No entanto, há sempre consultas de dermatologia para animar o dia!
Numa quente tarde de Fevereiro (viva o efeito de estufa), a minha pessoa dirige-se à Baixa conimbricense à procura do consultório de um senhor doutor dos dói-dóis da pele. Rapidamente confirmei as minhas suspeitas: o consultório situava-se numa daquelas casas antiquérrimas que no rés-do-chão não tem nada a não ser umas escadas em madeira assustadoramente a pique que parecem intermináveis (pelo menos dois andares tinham). Valeu-me o corrimão, que eu já não sou uma jovem de 11 anos!
Ligeiramente ofegante depois de um lance inteiro de vertiginosa escadaria, deparo-me com uma porta que não conseguia abrir. O vidro fosco e a ausência total de maçanetas fizeram-me pensar que, provavelmente, teria entrado num daqueles livros que a minha geração lia, os Arrepios. Obriguei-me a racionalizar e a não temer o desconhecido para lá da porta pintada daquele beige tipico das casas antiquérrimas que querem parecer limpinhas e mais jovens do que realmente são. Decidi empurrar a metade direita da porta. A metade direita da porta não se mexeu. A coisa estava a ficar pior. Tentei pois, já por falta de alternativas, empurrar a parte esquerda. E fez-se luz! Ou direi melhor, escuridão?
Sim, os corredores estavam escuros. Desagradavelmente escuros. No entanto, à minha direita surgia um foco de luz esbranquiçada. Descobri que provinha de uma casinhota mesmo ao lado da porta por onde tinha acabado de entrar. Enfiada lá dentro, não menos branca que a luz que a alumiava, estava uma senhora idosa, de cabelos alvos e bata igualmente NeoBlanc (branco mais branco não há ). Sentada, folheava uma pequena agenda repleta da caligrafia esticada e ondulante igualzinha à da minha avó, quando os seus óculos redondos de aros de massa me miraram e a sua boca se abriu de imediato, pronunciando em tom indiferente: Cláudia Morais?? perguntou ela mais rapida que um trovão. Era assim tão óbvio que eu era a Cláudia Morais apesar de estar adiantada 15 minutos para a hora da consulta?
Claro que era.
Não desviando o olhar um milímetro sequer, seguiu: - Espere, por favor.
Eu, que não sou lá muito boa a lidar com este tipo de emoções fortes, tive mesmo de lhe perguntar: - Peço desculpa, mas será que me podia indicar a casa-de-banho?
Depois das indicações recebidas, respirei fundo e, decidida, percorri o corredor.
O papel de parede forrava todo aquele labiríntico corredor. Tudo tinha um tom esverdeado e amarelo-diarreia que enjoaria até um futebolista com gosto para a decoração de interiores. Os candelabros negros em forma de chama eram apenas o toque final naquele requintado gosto. Azar o meu. A lâmpada de luz branca que, supostamente, iluminaria aquele espaço lúgubre, estava com uns cheliques muito estranhos e piscava que se fartava, apenas permitindo-me ver com clareza por onde me enfiava durante 1 décima de segundo. Se me aparecesse pela frente a Ministra da Educação semi-nua, com a cara pintada, numa performance fidedigna da dança da chuva africana e vestida em missangas que nem por isso lhe tapavam as vergonhas, tinha morrido ali.
O corredor serpenteava para a direita. As tábuas do soalho eram bamboleantes demais para o meu gosto, dando-me a sensação de que poderia aparecer por ali um buraco a qualquer momento. Mais portas, mais corredor e, finalmente, a terra prometida! Uma portinha pequena com uma chave dourada (tinha de ser dourada) de fora a minha bexiga estava salva.
Curiosamente, depois de todo aquele percurso sombrio, a casa-de-banho tinha uma luz amarelada estranhamente aconchegante. Será que isso quereria dizer alguma coisa? Estariam a dar-me o céu antes de me mandarem, de novo, para o inferno? Será que, depois das mãos lavadas e limpas numa toalha de algodão (sim, ali não se gasta papel desnecessariamente), de ter a chave dourada na mão, pronta a sair daquele cubículo que, apesar de já ter visto mais porcaria que um telespectador da TVI, tinha o seu aconchego, EU, Claudette Maria, iria dar de caras... com o Sócrates em cuecas da feira, 5 euros meia dúzia? Mas o destino (ai destino!) foi gentil comigo, poupou-me o coração a tal susto. Confesso que me custou apagar a luz da casa de banho e mergulhar na escuridão de novo. Por isso, decidi percorrer o caminho de volta em passo rapido até à sala de espera.
Entrando naquele espaço igualmente sombrio, dir-se-ia que eu deveria estar vestida com um vestido longo até aos pés, uma fita de seda a apertá-lo por baixo do peito, cabelos apanhados num tutu em caracol e não calçada com sapatilhas e calças de ganga. Decidi sentar a minha real peida (ai, uma senhora não utiliza estes termos) num dos austeros cadeirões e apreciar as redondezas. Naperons rendados confirmado; vaso piroso confirmado; flores postiças no vaso piroso confirmado; livros em vez de revistas confirmado. Não que esta última característica seja má de todo. Prefiro mil vezes a intemporalidade de um livro à efemeridade (ah, que se lixe, já que disse peida também acho que não há mal se disser FUTILIDADE) da revista Caras. E que tipo de livro teria um sítio destes, perguntarão vocês, leitores que ainda não adormeceram com a narrativa? Reconheci-o de imediato: Coimbra A Alta Desaparecida. Óóóóbvio. O consultório, achava eu, era um espaço de passado recalcado sobre passado recalcado sobre passado.
- Cláudia Morais?? Pode ir!
Sim senhora.
Bati à porta e finalmente alguma luz natural. O consultório do senhor doutor era mais branco, menos verde, menos lúgubre. A fazer pandan com a senhora recepcionista, também ele tinha tudo muito NeoBlanc. Sentei-me e a conversa naturalmente queixosa lá começou. Ai, é isto assim, é aquilo assado. Já fiz aquilo mas não deu resultado. Fiz o outro e até melhorei, mas eu cá não gosto de comprimidos. E ele rematava com questões giras: - O que faz a moça? Ah, é do cinema... O velho [Manoel de Oliveira] é que nunca mais morre, hã?? Aqueles filmes dele fazem-me adormecer.
A parte da observação também foi engraçadota. Puxou-me para ao pé da lente de aumento com luz incorporada e eu, completamente indefesa, lá tive de me submeter ao palhacito, amigo, companheiro, todos somos prostitutas desta esquina que é a vida do Herman. Para quem não se lembra, o Herman encarnava o Avô Cantigas e amassava a cara aos putos que o rodeavam enquanto proferia aquela e outras frases semelhantes. Depois, na mesma rábula (sketch, prós mais novos), entrava o Zé Pedro Gomes a cantar a música das Panquecas, quecas, quecas...! . Para impor ordem, o Diácono Remédios parava com tudo e ensinava músicas do Dragon Ball às crianças enquanto todos destruíam o cenário.
- Moça, se quer um tratamento, sugiro isto...
Fez-me um desenho muito catita com a derme, a epiderme, as glândulas sebáceas, os poros e tudo mais. E disse-me, ainda que por outras palavras, que eu era uma moça muito sexual, porque tudo se devia a hormonas sexuais em conflito com a pele. Resumindo, clinicamente sou uma grande maluca.
Pois é. Existia tratamento, uma coisa de último recurso para pessoas teimosas como eu. Teria de sofrer penosos meses intermináveis sem apanhar muito sol, sem comer coisas boas (como quem diz, gorduras), fazer análises de dois em dois meses e, muito grave (o senhor doutor até o escreveu nas indicações que me deu com letra maiúscula e sublinhado, repetindo-o oralmente umas quatro vezes), PROIBÍDA A GRAVIDEZ. Fiquei desolada. Desta última é que não estava à espera. Tirem-me os chocolates, os raios de sol, mas não me tirem a capacidade de poder engravidar aos 22 anos, sem carro nem casa propria, sem emprego e a pagar 2500 euros pelo Mestrado!
- Mas, moça, saiba que o melhor tratamento é a idade.
Então, oh, faz-me um desenho todo giro, diz-me que se eu quiser até posso morrer a tentar tratar-me (exagero), logo depois de ter dado à luz uma criança completamente deficiente, e agora deita-me esta para o colo? Que a idade faz tudo? *estalido com a língua* Ai...!
Foi ao armário buscar-me um batom de cieiro (!), entregando-mo como se entrega um chupa-chupa ao menino que se portou bem na consulta do senhor doutor médico de bata branca. E lá lhe dei um aperto de mão na despedida, agradecendo a gentileza. Acompanhou-me até à porta ainda a falar do Oliveira.
Dirigi-me, novamente, à casinhota da senhora alva. Uma broinha de frutos secos pousava em cima de uma revista. Tinha-lhe interrompido o lanche. Paguei-lhe cinquenta euros pelo incómodo. Guardou, diligentemente, a quantia num maço de notas que extraiu, com uma incrível rapidez, do bolso esquerdo da bata. Fez-me lembrar um membro qualquer da Máfia mas com as cores da roupa invertidas.
À saída, mirei as escadas a pique e achei que descer, ao menos, sempre era mais fácil. Mas, assim que me agarrei ao corrimão, procurando apoio tal e qual um velhinho centenário, entram, de rompante, duas crianças que galgam as escadas em 3 segundos. Claramente abismada, reparei que os progenitores vinham atrás, agarrando-se ao corrimão como quem se agarra à vida. Tive a amabilidade e o altruísmo de me afastar para lhes permitir a passagem, já que a subida me parecia extremamente custosa a avaliar pelas expressões faciais de desespero de ambos, de olhos arregalados presos na segurança do patamar (been there, done that).
Por este gesto, eu podia ter caído pelas escadas abaixo. Mas safei-me. Ser uma querida compensa, apesar de nenhum deles ter agradecido (verbalmente!).

Fim
P.S. - Chegaram ao Fim? Conseguiram mesmo?
P.S. 2 - Desculpem a falta de acentos em algumas palavras mas se escrever normalmente a palavra pró

ria vai sempre ficar com aquela cara esú

ida que me há-de perseguir em pesadelos e, eventualmente, levar à loucura.
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